Steph, como prefere que o chamem, foi federado em bodyboard durante sete anos, durante os quais competiu ao lado de nomes incontornáveis desta modalidade desportiva, como Tristan Roberts ou Pierre-Louis Costes, entre tantos outros.
Escolhe hoje estar fora do circuito mundial, de forma a poder dedicar-se ao free surf e às viagens que faz à boleia das ondas.
O seu talento é tal, que continua a haver quem diga que é o melhor do mundo. Será que é mesmo?
Stephanos Kokorelis, South Australia
Eu não sei se se diz que eu sou o melhor do mundo no bodyboard, mas se calhar a nível nacional, atualmente, sou capaz de ser dos melhores, ou o melhor. Talvez porque, quando eu fiz a transição das competições para a tal outra vertente do bodyboard, que é o free surf, eu acabei por começar a evoluir imenso a minha técnica no bodyboard. E acabei por fazer várias surf trips com pessoas de renome no meio, a nível mundial. Portanto, acabei por fazer um caminho que, se calhar, nenhum português tinha feito.
No episódio de hoje, o talento português, que dá que falar além fronteiras, conta-nos (quase) tudo sobre o seu percurso no bodyboard, a sua paixão pela Austrália, por onde tem viajado bastante, as manobras aéreas às quais não resiste, a parceria com a marca de renome a nível mundial, Pride Bodyboards, o receio dos tubarões, e muito mais.
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Como é que o bodyboard surge na tua vida?
Por acaso é curioso como eu comecei a fazer bodyboard, porque eu jogava futebol profissional (para a idade que tinha na altura, 11 ou 12 anos). Jogava quatro vezes por semana, mas entretanto tive uma lesão no pé, que me obrigou a parar durante seis ou sete meses. Nesse período, comecei a fazer bodyboard com alguns amigos da escola que já tinham aulas regularmente. Experimentei e adorei. Comecei depois a fazer bodyboard todas as semanas, até agora.
E agora, em que ponto está a tua vida? Podemos dizer que estás a viver entre a Austrália e Portugal?
Sim, aliás, eu sempre vivi em Portugal. Entretanto, há dois anos, vim para a Austrália e, desde que vim, fiquei um bocado apaixonado por este país. Portanto, tenho estado três ou quatro meses em Portugal, depois venho dois, três, quatro meses para a Austrália, e tenho estado assim, nos últimos nos últimos dois/ três anos.
Agora estás mais por Sydney, mas já exploraste também outras zonas da Austrália, certo?
Sim, eu quando vim para a Austrália acabei por estar os primeiros meses a viajar. Comecei pela costa oeste da Austrália, estive também no Sul da Austrália umas semanas, e depois a viagem acabou por me trazer até à costa este. Eu não vim directamente para Sydney. Estive a viver no Sul de Sydney, numa zona que se chama Ulladulla. Acabei por ficar lá três ou quatro meses a trabalhar, e aproveitava as minhas folgas para surfar e conhecer algumas zonas sobre as quais já tinha ouvido falar, mas às quais ainda não tinha tido oportunidade de ir. Portanto, seis meses depois de chegar à Austrália é que vim viver para Sydney. Agora a minha base está em Sydney, mas sempre que há boas ondas ou um bom swell, acabo por viajar, ou para o Sul da Austrália ou para o Sul de Sydney, para essa zona onde comecei por viver.
Stephanos Kokorelis, Alaia Bay Wave Pool - Suíça Credit: Joana Pereira
Sim, sem dúvida. A minha zona preferida é a South Coast de New South Wales, ou seja, a partir de Wollongong ou Kiama, para baixo.
Porque é que esta zona é especial?
Maioritariamente, por causa da qualidade das ondas. Por exemplo, em Sydney existem boas ondas também, mas para a prática de bodyboard, nós precisamos de um tipo de ondas um bocado específicas. Nesta zona, a Sul de Sydney, ao longo de 20 quilómetros, tens várias ondas muito boas para bodyboard - o formato das ondas é muito adequado. Sempre que vem, por exemplo, uma boa ondulação, eu em vez de me limitar e surfar aqui em Sydney ondas que se calhar são um bocado medianas, prefiro viajar duas ou três horas de carro e surfar ondas que são muito melhores para a prática do bodyboard.
Quais são as especificidades destas ondas? Que formato ideal de onda é este a que te referes?
Eu vou tentar dar um bocado de contexto e comparar com o surf, porque sinto que as pessoas têm mais visibilidade sobre as ondas do surf, porque é um desporto muito maior. Portanto, vou começar pelos surfistas. Os surfistas gostam de ondas que são compridas e um bocadinho mais lentas. Ou seja, quando a onda rebenta, tem que lhes dar tempo para eles se pôrem de pé e, idealmente, é uma onda comprida - há um bom exemplo disso na Gold Coast. Há ondas que têm um minuto ou dois, os surfistas surfam a onda e fazem as manobras com toda a calma do mundo. O bodyboard é um bocado o oposto. Nós queremos ondas que sejam muito rápidas e explosivas. Ou seja, em vez de ser uma onda que rebenta com muita calma e dura um ou dois minutos, no nosso caso, é o oposto. É uma onda que, quando rebenta, é muito rápida, muito explosiva e curta. Na South Coast de NSW, a Austrália tem muitas ondas assim.
Steph Kokorelis, El Fronton - Espanha Credit: javier henriquez cutillas
Sim, há várias manobras no bodyboard. As manobras que eu mais gosto de fazer são manobras aéreas, ou seja, com a velocidade que tu geras na onda, e depois com o lip da onda, és projetado para a frente e para o ar, e consegues fazer vários tipos de manobras. A minha manobra preferida é um 360 aéreo. Também há outras manobras, por exemplo, o backflip é uma manobra muito comum no bodyboard. Outra manobra muito comum é o invert.
Neste momento, és federado?
Eu fui federado durante muitos anos. Quando comecei a fazer bodyboard numa escola, tinha muita pressão para fazer campeonatos. Na altura, também era mais jovem, portanto, era algo que me dava muita motivação. Fui federado dos 11 anos aos 18, e fazia campeonatos regionais e nacionais. Mais tarde, com 14/ 15 anos, comecei a fazer campeonatos europeus e mundiais. Entretanto, aos 18, parei com a competição, porque também entrei na faculdade e, sinceramente, apercebi-me de que, se calhar, poderia explorar outras vertentes do bodyboard. O único caminho não era a competição. Existem mais formas de fazeres bodyboard, e é nisso que me foco bastante, hoje em dia. É raro fazer campeonatos. Normalmente, até faço mais a outra vertente do bodyboard, que é o free surf, ir atrás de ondulações, surfar em sítios onde se calhar o pessoal não surfa tanto, fazer vídeos, criar conteúdo...
Com que grandes nomes do bodyboard já competiste?
Durante muitos anos, quando eu era adolescente, competi com um sul africano, o Tristan Roberts. Nós tínhamos a mesma idade, portanto, entre os 15 e os 18 anos, estávamos sempre a competir juntos, e íamos a finais juntos. Às vezes ganhava ele, outras vezes ganhava eu. Hoje em dia, ele é bicampeão mundial. Há outros nomes, como um francês, que já foi várias vezes campeão mundial, com quem eu também competi em campeonatos europeus e em campeonatos mundiais. É o Pierre-Louis Costes, e é considerado o melhor bodyboarder de todos os tempos. Há vários nomes nacionais que também são referência no bodyboard, como o Hugo Pinheiro, ou o Manuel Centeno. Também já fiz várias competições com eles a nível nacional e a nível europeu.
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Steph Kokorelis, Cronulla - Austrália
Eu não sei se se diz que eu sou o melhor do mundo no bodyboard, mas se calhar a nível nacional, atualmente, sou capaz de ser dos melhores, ou o melhor. Talvez porque, quando eu fiz a transição das competições para a tal outra vertente do bodyboard, que é o free surf, eu acabei por começar a evoluir imenso a minha técnica no bodyboard. E acabei por fazer várias surf trips com pessoas de renome no meio, a nível mundial. Portanto, acabei por fazer um caminho que, se calhar, nenhum português tinha feito.
Esta tua relevância a nível internacional reflete-se também na tua parceria com a Pride Bodyboards, correto?
Sim, a Pride Bodyboards é considerada a melhor marca de bodyboard actualmente. Eles patrocinam vários atletas, mas têm uma equipa mundial, composta por quatro pessoas. É o Tristan Roberts - o tal bicampeão mundial -, um australiano que se chama Liam Lucas, um chileno, que é o Matias Diaz, e eu. Estas quatro pessoas têm o próprio pro model, ou seja, esta marca vende, em todas as lojas do mundo, estas quatro pranchas: uma do Tristan Roberts, uma do Liam Lucas, uma do Matias Diaz e uma do Steph Kokorelis. Todo o budget de marketing e publicidade investido pela marca destina-se a estes quatro nomes, com o intuito de vender as pranchas.
Se alguém aqui na Austrália quiser comprar a tua prancha, como é que faz?
Pode encomendar via website, prideboards.com, ou então, pode ir a uma surfshop local que venda pranchas de bodyboard. Provavelmente, se encontrarem lá a marca Pride, vão conseguir encontrar o meu pro model, que é o Koned.
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Steph Kokorelis com a sua prancha pro model Koned, em parceria com a marca de pranchas de bodyboard, Pride Bodyboards. Peniche - Portugal
Tenho uma rotina de treinos. Diria que não é um plano anual, talvez seja mais um plano mais trimestral. Por exemplo, se eu for fazer uma surftrip a um certo sítio, vou planear os meus treinos consoante essa surftrip. Vamos imaginar que há um campeonato em junho, para o qual sou convidado. Se calhar, nos dois ou três meses antes desse campeonato, vou preparar-me. Geralmente, faço treinos de apneia, normalmente em piscinas, ou mesmo no mar. Não costumo fazer muitos treinos de ginásio, a única coisa que eu faço no ginásio é bicicleta. Fora isso, passo muito tempo dentro de água a remar, o que ajuda depois também a ganhar um bocadinho mais de resistência.
Tu falaste agora em campeonatos para os quais és convidado, podes contar mais sobre isso?
Eu hoje em dia não faço um circuito mundial ou um circuito europeu. Faço apenas campeonatos para os quais sou convidado, ou campeonatos especiais em certas zonas que me interessam.
Quer isto dizer que tu viajas à boleia das ondas, ou também viajas para sítios onde não há mar?
É muito raro. Normalmente, planeio o meu ano para estar sempre perto de boas ondas.
Tudo isto acontece enquanto tu trabalhas a full time para uma empresa tech, confirmas?
Certo. Eu há três anos e meio tenho estado a trabalhar numa empresa tech portuguesa. A parte boa é que eles me dão muita flexibilidade. Portanto, apesar de ter que trabalhar todos os dias oito horas, eu posso escolher o horário em que trabalho. Portanto, honestamente, é um complemento perfeito para esta minha carreira no bodyboard, porque, se as ondas estão boas de manhã, eu consigo ir surfar duas ou três horas de manhã, e depois sento-me a trabalhar no computador, ou vice-versa. Se as ondas estiverem boas à tarde, eu consigo trabalhar de manhã e depois deslocar-me para surfar à tarde.
Agora a pergunta que não quer calar: tu aqui na Austrália não tens medo dos tubarões?
Já tive muito medo dos tubarões, no início. Acho que é normal, todas as pessoas, quando chegam aqui à Austrália, entrarerm no mar e só pensarem em tubarões. Eu lembro-me que, nos primeiros dois ou três meses, sempre que entrava dentro de água, começava pensar: quando é que eu vou ver um tubarão? Quando é que vai aparecer um tubarão? Mas, entretanto, isso acabou por passar. Acho que é como tudo na vida. Nós acabamos por nos habituar a certas situações, e foi um bocado o que aconteceu com os tubarões. Eu comecei a ver muitas pessoas a surfar, às vezes até sozinhas e ao final do dia/ tarde - que é quando há mais tubarões -, e não lhes acontecia nada. E são pessoas com, se calhar, vinte ou trinta anos de experiência em bodyboard. Se eles não têm medo, se eles estão a fazer bodyboard sozinhos, a qualquer hora do dia, à partida também não me vai acontecer nada. É uma questão mental. Foi um bocado por causa dessa conclusão que eu comecei a ficar cada vez mais à vontade no mar. Hoje em dia, tenho à vontade para surfar sozinho, é uma coisa que já não me passa pela cabeça.
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Steph Kokorelis, Peniche - Portugal Credit: Pedro Miranda
Inicialmente, se eu visse, por exemplo, uma praia onde as ondas estão boas, mas não está ninguém a surfar, eu diria que, na altura, eu não iria surfar sozinho. Se calhar ia para outra praia onde estivesse um grupo de, pelo menos, dois, três, quatro, cinco surfistas no mesmo sítio. Entrava no mesmo sítio que eles, e surfava o mesmo tempo que eles. Se eles saíssem da água, eu saía, porque tinha medo dos tubarões. Hoje em dia, se eu vir boas ondas, à partida, já não penso nos tubarões. Acho que pode sempre haver tubarões, mas a probabilidade de um tubarão te atacar é tão pequenina que é um bocado ridículo estar constantemente a pensar nisso. É um bocado a maneira como vejo a coisa.
E não tens nenhuma história assustadora relacionada com a prática de bodyboard? Nunca viste nenhuma figura indesejada no mar?
Nunca vi nenhum tubarão ou nenhum animal assustador dentro de água, mas já tive situações engraçadas, e até foi nos primeiros meses cá na Austrália. Estava a surfar só com um amigo meu, e era um sítio fora de Sydney, um bocadinho mais remoto. Quando surfas em sítios com menos gente acabas por, se calhar, ter um bocadinho mais de medo, porque se acontecer alguma coisa, os hospitais são mais longe, os acessos não são tão fáceis, não tens rede... E eu lembro-me de estar a surfar com um amigo australiano, numa onda na South Coast, a 3/ 4 horas de Sydney, e estávamos a surfar, sem pensar em nada, só a divertirmo-nos. Quando saímos da água, um amigo nosso, que estava a filmar com um drone, chamou-nos aos dois. E mostrou-nos um vídeo de um tubarão. A minha reacção foi tipo: “que giro, onde é? Quando é que filmaste isso?'' E ele disse, com a maior tranquilidade: ”foi agora mesmo, há dez minutos”. E eu: “aqui?”. E ele: “Sim, estava tipo a 100 metros de vocês”. E eu “e não me chamaste para fora da água, não disseste nada?”. Depois comecei a perceber que, se os australianos têm tanta tranquilidade sobre este assunto, eu também tenho que adotar essa postura. A partir desse momento, acabei por começar a ficar cada vez mais relaxado em relação aos tubarões e aos animais perigosos dentro de água em geral.
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