A geóloga brasileira Jaqueline Lopes Diniz, que vive em Perth, recebeu uma bolsa de estudos para Doutorado em Geologia da Forrest Research Foundation.
No valor de AU$430 mil a bolsa cobrirá todos os custos para seus estudos na Universidade Western Austrália. Um grande passo para uma imigrante que trabalhava de faxineira e vivia numa campervan para economizar e pagar seu sustento na Austrália.
Falamos com a Jaqueline em uma extensa entrevista, a seguir alguns destaques do nosso bate papo.

Minerais como as terras raras são essenciais para a produção de baterias, turbinas eólicas, painéis solares e outras tecnologias fundamentais para a transição energética Source: iStockphoto / BJP7images/Getty Images
Jaqueline - Minha pesquisa busca explorar soluções sustentáveis para a mineração, resultado de uma parceria entre a University of Western Australia (UWA) e a startup Ekion, com financiamento integral da Forrest Research Foundation. O meu projeto utiliza uma nova tecnologia de extração mineral que não envolve escavação, chamada 'Electrokinetics-In Situ Recovery (EK-ISR)'. Nesse processo, um campo eletromagnético é aplicado para mobilizar e concentrar o minério de interesse.
O projeto de extração de minerais sem escavação é em parceria com a start up australiana Ekion Credit: Luciana Fraguas
Um dos grandes desafios da indústria mineradora hoje é substituir o uso de ácidos fortes no processo de dissolução dos minerais, já que essas substâncias podem causar danos graves ao meio ambiente. Minha pesquisa busca testar alternativas mais seguras, utilizando green lixiviants – solventes ecológicos que não contaminam o solo nem o lençol freático.
Esse projeto foi selecionado pela Forrest Research Foundation, uma das mais prestigiadas bolsas de pesquisa na Austrália. A seleção é altamente competitiva e leva em conta critérios como excelência acadêmica, impacto da pesquisa e contribuição para a sociedade. Além do financiamento integral do meu doutorado, a bolsa da Forrest me oferece moradia no Forrest Hall, um espaço voltado para pesquisadores de alto nível, além de acesso a uma rede interdisciplinar de cientistas e oportunidades exclusivas de desenvolvimento profissional. A fundação incentiva projetos inovadores e que tenham potencial para transformar setores estratégicos, como a mineração sustentável.
Da campervan para a acomodação Forrest Hall com vista para o Rio Swan: bolsa de estudos cobre também moradia Credit: Forest Hall
O processo em si é gratuito e levou cerca de 7 meses! Eu dividiria em quatro etapas.
A primeira é a mais desafiadora, porque envolve toda a preparação para conseguir a bolsa. Primeiro, eu tive que estudar para atingir o nível de inglês exigido no IELTS, encontrar um orientador e desenvolver uma proposta de pesquisa bem estruturada. Para poder me candidatar à Forrest, eu precisava já estar inscrita em uma das cinco universidades da Austrália Ocidental.
Nessa fase, eu contei com a ajuda de uma consultoria especializada na carreira científica. Minha rotina era super puxada – estudava inglês e ainda trabalhava em serviço braçal –, então resolvi investir nisso por conta própria. Juntei dinheiro e contratei a assessoria para me ajudar a encontrar um orientador, um projeto que fizesse sentido para o meu perfil e também para organizar minha aplicação para as bolsas.
A segunda etapa foi a inscrição na Forrest em si. Eu preenchi todos os formulários no site da fundação em setembro, e o processo foi completamente gratuito.

O projeto de Jaqueline que chamou a atenção da fundação australiana envolve a recuperação de minerais críticos presentes em bacias de rejeitos
Depois disso, a última etapa foi a aplicação do visto e a mudança para o Forrest Hall. E aqui vem uma das partes mais incríveis: não precisei pagar nada pelo visto, nem para mim nem para o meu parceiro, Michel Fagundes Saldanha. Além disso, a bolsa cobriu o health insurance e ainda nos deram AUD 10.000 para a mudança, incluindo as passagens do Brasil para Perth.
Então, apesar do processo ser longo e demandar bastante preparo, valeu totalmente a pena.
Quando você aplicou para essa bolsa você fazia trabalhos temporários de meio período para se manter aqui, e ainda estudava. Conta para a gente como era seu dia-a-dia?
Essa foi, sem dúvida, a parte mais desafiadora do processo. Como todo estudante de inglês que chega na Austrália, no começo a gente precisa trabalhar com o que aparece, geralmente em serviços mais braçais.
Durante a semana, eu trabalhava como faxineira, e nos finais de semana, numa empresa de brinquedos infláveis (tipo pula-pula). Meu trabalho era pesado: ajudava a carregar e descarregar os caminhões e montava os brinquedos para os eventos.Jaqueline

Projeto da brasileira envolve preservação do meio ambiente por meio de extração sustentável de mineiras: sem escavação Credit: Fotolgart/Getty Images
O desafio não era só acadêmico. Nesse período, eu e meu parceiro estávamos renovando nosso visto, o que, como todo estudante internacional sabe, tem um custo financeiro bem alto. Foi aí que contamos com a ajuda dos nossos amigos da empresa de brinquedos infláveis. Durante dois meses, moramos na campervan de um colega, e nosso chefe nos permitiu usar a estrutura da empresa – o escritório, onde eu fazia minhas entrevistas, e as facilities, como banheiro e cozinha.

Jaqueline trabalhava com faxina para pagar as contas na Austrália
Você estava com visto de estudante, ao ganhar essa bolsa o seu visto mudará?
Na verdade, meu visto continua sendo o subclass 500, que é o visto de estudante. A diferença é que agora ele é da categoria Higher Education, o que significa que tanto eu quanto meu parceiro podemos trabalhar full-time.
O visto tem uma duração total de cinco anos, embora o doutorado em si dure três anos e meio. Esse tempo extra é justamente para cobrir qualquer necessidade adicional durante a pesquisa. Durante esse período, estarei 100% dedicada ao laboratório, congressos e publicações.
Quando iniciam seus estudos?
Comecei oficialmente na segunda-feira, 17 de março. O interessante aqui na Austrália é que, no doutorado, não temos aulas como no Brasil. Meu tempo será 100% dedicado à pesquisa.
Vou dividir minha rotina entre o laboratório da universidade e a sala que terei na startup Ekion, onde poderei participar do desenvolvimento da tecnologia e a aplicação dos resultados da pesquisa.

Recuperação eletrocinética in situ (EK-ISR): este processo inovador, 100% elétrico, extrai metais sem a necessidade de escavação ou fracking do corpo de minério
Espero que, no futuro, eu consiga continuar aplicando meu conhecimento para trazer inovação para a indústria. Quero que minha pesquisa tenha um impacto real e ajude a transformar a mineração em um setor mais sustentável.
Também sou muito grata a todas as bolsas que já recebi ao longo da minha trajetória. Sem esse apoio, nada disso seria possível. Por isso, no futuro, espero poder retribuir para a sociedade, seja compartilhando conhecimento, ajudando outros estudantes ou contribuindo para novas descobertas que façam a diferença.

Jaqueline e Michel trabalharam em uma empresa de brinquedos infláveis, aqui os dois montando um pula-pula
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