Turgut formou-se em hotelaria e turismo e há 3 anos esteve 6 meses a trabalhar na cozinha de um restaurante algarvio com esplanada sobre a Ria Formosa.
Em outubro de 22 voltou a Istambul e realizou o desejo do pai, abriu um restaurante, sabores europeus, alguma sofisticação, mesmo junto ao grande bazar.
Serve cada vez menos refeições.
Não é por falta de gosto no cozinhado e no ambiente, é porque os turcos têm cada vez menos poder de compra.
A inflação chegou aos devastadores 44% no ano passado – ficou pelos 40% já em janeiro deste ano.
Aliás, é por causa da depreciação da lira turca que Turgut não concretiza o desejo de vir esta Páscoa mostrar à mulher o Algarve onde trabalhou.
Ylmaz, o pai de Turgut tem uma loja de conveniência onde vende de tudo, 24 horas por dia 7 dias por semana. É uma loja ao lado do restaurante e à beira do bazar. Vende bem mas só para os muitos turistas a quem pede que lhe paguem em dólares ou euros.
Ele explica que 100 liras turcas há 5 anos valiam 20 euros
Agora não chegam a 2 euros e meio. É por isso que os turcos mal conseguem viajar – a não ser para migrar.
Mecmet é o segundo irmão de Turgut, 3 anos mais novo, tem 28, é advogado.
Nestes dias teve de ir ao tribunal defender a irmã, Ayssam, 22 anos, estudante de biologia numa das principais universidades de Istambul.
Ela foi uma das mais de 2 mil pessoas detidas por participar nas manifestações a exigir a libertação de İmamoğlu [Ekrem İmamoğlu, líder da oposição e prefeito de Istambul].
Mecmet, o irmão que é advogado comenta que está à vista de toda a gente que İmamoğlu foi preso porque era preciso tirá-lo da frente do presidente turco Recep Tayyip Erdogan.
A acusação é em tudo inconsistente – urdida apenas com motivo político, como está a ser frequente na Turquia. Ayssam, a irmã mais nova de Turgut e Mecmet saiu da cadeia logo no dia seguinte a ter sido detida – mas o advogado Mecmet acrescenta que os detidos nos últimos dias já não estão a ser libertados logo nas horas seguintes.
Acrescenta que pelas contas dele os detidos nestas duas semanas – por contestarem o regime de Erdogan – são bastantes mais do que os 2 mil anunciados, em Isambul talvez sejam 2 mil mas há muitos mais em cidade como a capital Ancara ou em Izmir.
Yassam foi detida por protestar mas está de volta à universidade onde os estudantes estão mobilizados para continuar a combater a arbitrariedade da autocracia de Erdogan.
Ela conta que nunca conheceu um outro mandante político na Turquia. Erdogan, entre primeiro-ministro e presidente – está há 22 anos no poder – é a idade de Yassam e da maioria dos outros finalistas universitários.
Ela queixa-se da falta de liberdade no regime com um chefe que não tolera adversários – mas também se queixa de como Erdogan está a restringir tudo.
Ela gosta de dançar e costumava ir à discoteca nas quinta-feiras à noite. Agora, não é permitida música depois das 11 da noite.
Também há sucessivas restrições à venda de bebidas alcoólicas.
A familia destes 3 irmãos está farta de Erdogan – mas reconhece que ele continua a ter muitos seguidores.
O presidente turco surgiu há 22 anos – como um reformista – que prometia fazer da Turquia um país líder do islão politico moderado, foi então o candidato do povo mais humilde, com ele ao comando, a Turquia de facto cresceu – ele fez construir estradas e auto-estradas, escolas e hospitais.
A Turquia passou a contar no tabuleiro diplomático – ele é um equilibrista entre ocidente e orientes – tanto apoia o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky como fala com Vladimir Putin, presidente da Rússia. Tenta entrar no jogo do médio oriente, sobretudo na Síria – mas não consegue travar os ímpetos expansionistas de Israel.
Erdogan consegue – mesmo nestes dias de repressão da oposição – escapar a criticas ásperas da união europeia. Ele tem um trunfo; e que é ele quem fecha a cancela a mais de 4 milhoes de refugiados – a Europa paga-lhe para que ele os retenha.
Os irmãos Turgut, Mehmet e Ayssam vivem e trabalham muito perto da casa onde mora o nobel da literatura Orhan Pamuk, hoje com 70 anos, escritor de livros memoráveis como Neve, Istambul ou As Noites da Peste.
Pamuk é prudente, guarda o pensamento e as opiniões para os livros que escreve, foi processado pela justiça turca por ter escrito o que foi interpretado como criticas a Kemal Ataturk o pai da pátria, fundador em 1920 da Turquia moderna.
Mas o escritor nobel, ainda professor de literatura na universidade de Columbia, NY, não se sabe até quando, dá aulas à distância.
Observador perspicaz da realidade de Istambul, capaz de se por de fora para olhar por cima, lastimava outro dia que a Turquia e a União Europeia nunca tenham conseguido juntar-se, ele reconhece que a Turquia não fez os deveres, sobretudo em liberdade de expressão e em direitos humanos, para ser sociedade livre.
A Turquia sentiu-se – no começo do tempo de Erdogan – desprezada pela Europa – e é assim que as series de televisão na Turquia de agora são nacionalista, xenófobas, glorificam os sultões otomanos, maldizem os cristãos e os europeus em geral.
Os turcos sentem o poder de ter o 2º maior exército da nato – logo a seguir ao dos Estados Unidos e muitos reconhecem que isso é mérito de Erdogan – o sultão do século 21 para os fieis – o autocrata que tem de sair do poder – reivingica a muita oposição
Sobretudo os turcos das cidades e os mais novos a luta entre uns e outros anuncia-se tensa.
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